Demasiado Tarde

2011

“Entramos en los cuarenta años con la inexpresada idea de que el nuestro, simple y silencioso matrimonio de hermanos, era necesaria clausura de la genealogía asentada por nuestros bisabuelos en nuestra casa. Nos moriríamos allí algún día, vagos y esquivos primos se quedarían con la casa y la echarían al suelo para enriquecerse con el terreno y los ladrillos; o mejor, nosotros mismos la voltearíamos justicieramente antes de que fuese demasiado tarde”
* Trecho do conto “Casa Tomada” de Julio Cortázar, publicado originalmente em 1951, em “Bestiário”.

Um distinto hotel, uma pensão, um restaurante, uma casa de passagem, uma casa tomada, um prédio fechado, um lugar perigoso, um canteiro de obras. Todos esses lugares faziam parte da trajetória daquela construção localizada na esquina das ruas Brasil y Bolívar, no Bairro de San Telmo, na capital da Argentina. Ela já estava desabitada quando, por intermédio de Bruno - o arquiteto responsável pela reforma do prédio - pude conhecer seu interior. Assim como essa construção, a região de San Telmo tinha dezenas de outras: casas, prédios, sobrados, antigos hotéis, que aparentemente pareciam abandonadas, a notar por sua pintura mal conservada, janelas quase sempre fechadas, limo, mofo e plantas crescendo do terraço ao umbral. O aspecto de abandono, no entanto, negligenciava o cotidiano produzido atrás daquelas portas coladas às calçadas. Eram prédios elegantes que, em sua maioria, estavam sendo vendidos a investidores europeus, não antes de serem desocupados com violência, e por vezes, demolidos. Nas últimas décadas eles foram ocupados por famílias que ali se fizeram, gestando crianças que diferentes de seus pais e avós, eram nascidas em solo porteño. Guiada por Cesar Augusto, nascido em Asunción; e por Alfredo, nascido no departamento de Caaguazú, no Paraguai - ambos trabalhadores do ramo da construção civil e zeladoria de prédios em Buenos Aires - pude, enquanto tirava fotos, conhecer um pouco mais daquele ambiente que em 2009 era de trabalho. Um trabalho de tentar apagar com camadas de tinta e reboco, o marcado do tempo nas portas toscamente numeradas, o assoalho gasto, blindar o cheiro dos cômodos, os pátios tomados de plantas que brotavam das rachaduras das paredes, extinguir as marcas intoleráveis da ruína.

As fotografias desta exposição fazem parte de minha dissertação de Mestrado em Antropologia Social, “A morada como duração da memória. Estudo antropológico das narrativas e trajetórias sociais de núcleos familiares e redes de camadas médias urbanas habitantes da cidade de Porto Alegre, RS Brasil e do bairro de San Telmo, na cidade de Buenos Aires”. Elas foram produzidas em 2009, na cidade de Buenos Aires, a partir de um intercâmbio de três meses pelo programa "Red de Asociación de Posgrado en Antropologia Social, Argentina-Brasil. Programa Binacional de Centros Asociados de Posgrado en Antropologia Brasil (PPGAS/ UFRGS e Museu Nacional/ UFRJ) e Argentina (IDAES - UNSAM)", onde a pesquisadora recebeu uma bolsa de estudos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES

Exposições:
- Galeria Olho Nu
Prédio IFCH, UFRGS (Campus do Vale)
Endereço: Av. Bento Gonçalves, 9500 –Bloco AII, Porto Alegre, RS, Brasil
Promoção: Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social - PPGAS/UFRGS
Montagem: Navisual (Fabiela Bigossi, Catia Agnes, Luciano Viana, Yuri Rapkiewicz)
Orientação: Profa. Dra. Cornelia Eckert
- Mostra audiovisual da IX Reunião de Antropologia do MERCOSUL: Culturas, Encontros e Desigualdades.
Data: 10-13/julho/2011

::Para assistir a exposição, clique na primeira foto abaixo e siga utilizando as setas laterais::

terrazas
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